Um pequeno hall de textos cotidianos.Simples, 
leve , com tempero de rotina e uma dose de pluralidade escrita - comum e necessária.

Predicado
   
         , AFASTA-TE

De toda a inquietude,
Gerada por aquilo que bate,
Que pulsa,
Que fere.

Poetas embelezam a realidade,
Que pulsa,
Que Fere,
Poetas e palavras,
Provas e versos,
Tudo o que leres,
Teve uma intenção,
Teve uma emoção,
Gerada por aquilo que bate,
Que pulsa,
Que Fere.

Ouve C.Buarque,
Construção:

Texto de: P.

Caros leitores, um recadinho rápido: Estamos paralisando as atividades por alguns dias.Esperamos voltar em breve com mais conteúdo e novidades para todos! 

Um grande abraço,

Equipe LV.

Pequena fantasia de Zoé, o trainee de mergulhador

 

O escafandro não apertava o tanto que aparentava. Arraigado, o ar era aos poucos difundido. Respirar? Respiro sem a dádiva do conforto – a pele irá se enrugar de novo, alguns anos de vida esquecidos abaixo do mar. Não que eu esteja reclamando da profissão, possuo extremo apreço pelo que faço (embaraço o desnecessário, perdão), mas vejo com maus olhos as intenções dos que me ordenam. Nenhuma melodia é capaz de curar os que alentam sem pulmão; os que pulsam sem coração; os pobres; os miseráveis; os infames da própria lábia, enganados por si a acreditar em uma desverdade qualquer. Guerra é paz. Paz é guerra? Provavelmente. Frescurices à parte (codinome nostalgia), deu-se assim a minha história:


Zoé: Chegou mais um cargueiro! Três horas e meia.

Sávio: Desembarquem a carga imediatamente, quero todos a postos para receber as peças. Angar 1 receberá nossa mercadoria.

Zoé: Talvez hoje seja meu dia de folga., quem sabe?

Sávio: Talvez.


Não foi. Você poderia perguntar quais peças valem um resgate. Pouco importa. Eu dependia de erros alheios, e eles frequentemente aconteciam – uma frequência maior do que o normal, desleixo ensaiado pela preguiça e bucolismo presentes. Enfim, aprontaram as minhas vestes. Não eram tão feias quanto diziam. Puseram-me ao mar, equipado, porém, despido. Afundei daquela vez como se fosse a última; busquei aquela carga como se fosse a única; e cada metro meu num passo tímido, segui. Mas nunca chegava. A aproximação era permanente, algo semelhante a:


Z: Cem metros da Carga.

S: Ok.

Z: Dez metros da carga.

S: OK.

Z: Um metro da carga.

S:Quase lá!


Engano maior. Segui assim num almost there infinito. Dez centímetros, um centímetro; dez milímetros, um milímetro... como o fôlego permanecia, e aquele escafandro torturava cada vez mais a mente com uma falha iminente, cabia apenas seguir enquanto houvesse um seguir. As escalas diminuíam, o sofrimento não. O dia cortejou a noite, deu-lhe o mar para que pudesse ver seu reflexo do céu. Gostaria de vê-lo novamente. Bobagem. Repito o impulso à frente, um talvez sprint de consagração. O fundo não era tão fundo como falavam aos bastidores, era mais! Momentos finais:


S: Tudo certo ai?

Z: Quase lá.

S: Tem certeza?

Z: Sim.

S: Responda, tem certeza? Precisamos dessa carga!

Z: Já respondi que sim!

Z: Sávio?

Z: Alguém?


A ambição embebedou meu sangue, já podia tirar aquele escafandro sem sofrer. Sozinho como nunca antes, acompanhado com o de sempre. O real não era tão irreal quanto diziam. Sim, estou perto. Basta um pouco mais...talvez agora? Não consigo distinguir as distâncias além, como também é impossível voltar sem ajuda. Dever-se-ia prestar pela prudência do siga em frente? Não sei. Minutos, horas, dias e anos de agonia. Quanto já passou? Largar de mão agora seria uma estupidez gigantesca, esse esforço todo para nada? Penso em desistir. Não posso. Já não importava o meu trainee de mergulhador, aquele momento transcendia meu viver. A existência paira sob a eternidade enquanto houver a tal peça para que eu possa alcançar.


Texto de: F.

Ex poeta, Mother


Naqueles últimos versos que escrevi “ Lição: [ Re] aprender os nuances da vida”, queria expressar que deveria fazer algo novo e não simplesmente valorizar uma realidade em débito, porém necessária em nossa sociedade. Por esse motivo, nobre leitor, me dedicarei aos textos argumentativos e concomitantemente aos narrativos.


Devidamente esclarecida minha situação, gostaria de expressar minha homenagem às mães biológicas e,sobretudo, aquelas mães de coração. Caso os senhores não saibam, o autor que vos escreve é do sexo masculino e não sabe distinguir as dores do parto de uma dor mensal – Cólica (?) -, todavia entenda que a culpa não é minha, e sim da anatomia humana que distingue os sexos masculino e feminino. Explicado 

os termos, percebo que ser “ Mãe “ é exercer e cumprir uma missão impossível!


Nesse sentido, confesso porquanto filho que proporcionei inúmeros aborrecimentos, tristezas e ALEGRIAS. Por isso, minha mãe e mãe minha, peço-lhe perdão. Sendo assim, observo que a relação materna se assenta desde os nossos primeiros dias de vida, visto que crescemos e por conseguinte nos desenvolvemos ao longo de nove meses ( no meu caso foram oito ) dentro do seio materno, logo, renegar e desvalorizar esse amor fraterno é atirar pedra na cruz.


Além disso, como cristão acredito que o coração – sentido de conselho- de mãe corresponde aos desígnios de Deus. Nem Freud explica o chamado sexto sentido materno, ou mesmo a alegria que pulsa naquele seio ao nutrir e obviamente proporcionar saúde a um pequenino ser. Nobres leitores, o amor de mãe não se explica e nem se mede, apenas se sente.


Diante disso, embora a palavra mãe possa ser expressada e falada de modo diferentes (tais como, mãezinha, mamãe, mater e mother), o significado expressado por cada uma encontra seu subterfúgio em um sentimento puro e belo: O amor. Este, por sua vez, permanece ligado, não por tomadas ou Wireless, porém via alma entre mãe e filho para todo o sempre, e talvez só elas conseguem ser dignas dessa missão.


Texto de: P

Contos fantásticos da Marcela do almoxarifado


Iniciou dizendo: Então chegamos ao fim de mais uma jornada. Nós, os exploradores da memória e do perdido, senão os mais esquecidos (leia-se ingênuos), sofremos com a fúria inabalável do remorso. Já diria Róbson: A superstição é o fruto da desobediência civil; deveríamos estar prontos para obedecer aos comandos que viessem. Tudo funciona como um grande Leviatã, disposto por uma cabeça central (a do chefe Róbson, é claro) que comanda outras tantas. Contudo, se por acaso do destino,talvez um dia fosse exigido o guardar do impossível, o que há de convir? Tornar o impossível uma realidade, ora pois!


Nesse pique passamos o dia, extasiados pela ideologia do “juntos conseguiremos”, até o momento em que fui buscar os arquivos da fila 27J, caixote 7. Entro numa sala média, por milênios esquecida, com os documentos de arquivamento “27” (eles tratavam do que mesmo, afinal?). Havia apenas um caixote na sala, o que me soava estranho diante de tamanha falta de espaço no resto do almoxarifado – parece que o chefinho está precisando melhorar sua cabeça pensante. Pois bem, disponho-me a levar a única caixa existente para fora da sala, talvez seja alguma pegadinha. Pegadinhas não são comuns em nosso setor, os preceitos da empresa exigem a total doutrinação ao bem comum dos arquivadores – e pegadinhas não são vistas positivamente nesse contexto. E lá havia outra opção? Talvez tenham mudado de ideia. Saio da salinha para ver o resultado: Todos sumiram.


Nossa, que engraçado, serei bonificada por toda essa vergonha alheia? Agora já podem aparecer...Mas ninguém dá o ar da graça, devem estar buscando algum bolo ou algo do tipo. Passam-se vinte, trinta, quarenta minutos. Não há mais como esperar, vou atrás de respostas para essa brincadeira de mal gosto (e bota mal gosto nisso). Visito os cantinhos da Darlene, do Ademilson, do Róbson, ninguém presente. Bem, resta a rua. Restava a rua. Eu simplesmente não acreditava no que meus olhos viam: não havia uma alma penada para contar a história! O deserto da rua era tão extasiante quanto a mais bela paisagem, um momento impossível de ser guardado na fúria; no medo; no prazer; na surpresa; na alma. Alma, é o que distingue a nós dos outros. Uma pessoa, ainda que tivesse todas as suas partes repostas por autônomos, seria a mesma por possuir a mesma alma. Espírito de viver. A única motivação que possuo para seguir em frente é acreditar que posso reencontrar os outros, a minha família, os ingênuos e os demasiadamente espertos demais para a existência comum. Todos de volta, pois, como já diriam os tios Peixeiro e Baquetão, todo signo é ideológico. Minhas palavras são invalidas se não puderem ser ouvidas no viver de outrem. Meu viver não existe se não por ouvido pelo palavreado do que fiz. Meu ouvir não existe se não vivido nas palavras.


Alguma pista? Devo procurar imediatamente. Espera, a caixa! Como não pensei nisso antes? Retiro da caixa um bilhete, era um sinal. Os dizeres “é como arquivar o próprio ser” atrapalhavam mais do que ajudavam, mas já serviam para um começo. Arquivar o próprio ser... Uma selfie, talvez? Utilizo o celular e – voilà- consigo outra pista: A foto que surgiu, de fundo verde fosco, exprime uma águia – bem parruda, igual às de cinema- atacando a jugular de uma cobra. Brutal. Esperava a minha imagem, todavia a aparição de uma nova pista já reiterava a minha vontade de vencer, o medo já havia sido esquecido em um passado distante. Era chegado o momento, eu sentia isso: O que há de significar essa imagem? A águia, símbolo da liberdade, a cobra (símbolo do que mesmo?), o fundo verde esperançoso. A solução lógica era “Devo acabar com a cobra, liberdade já! “, e não existia nada que impedisse minha vontade. Queria sair dali. A única opção era desfazer-me das amarras instauradas pelo Leviatã empresarial, buscar  novos caminhos, vencer os novos desafios. A única saída desse mundo vazio de pessoas era, enfim, voltar a enxergar olhos, notar o que já não era notado, buscar guardar aquilo que há de real importância. A existência deve ser constatada, os olhos devem ser vistos, louvados sejam os sentimentos puros daqueles livres por natureza.


- E foi por isso que você pediu demissão, Marcela?

- Sim, foi por isso.

- Mas o que tem haver tudo o que você falou?

- Era uma metáfora de minha vida, da vontade que tenho de viver fora de doutrinações robsonianas novamente.

- Entendi...


A verdade é que eu não tinha entendido nada. A Marcela não estava muito bem ultimamente. Espero que sua nova carreira na fotografia possa fazê-la mais feliz, por fim. Bem, agora que você já sabe o porquê de ela ter saído, melhor eu voltar a trabalhar: Róbson quer todos os relatórios novos arquivados até o final do dia. Ele foi premiado no ultimo “Seminário Internacional do Almoxarifado Empresarial”, e vai nos retribuir com uma grande honra: Teremos uma plaquinha de funcionário do mês a partir dos próximos dias. Tanto esforço tem que ser reconhecido alguma hora, não acha? Agora já para o trabalho!


Texto de: F.

Receita de saudade - Serial "curtinhas"

O principal ingrediente de que você precisará é amor, o causador do bem e do mal, em presença ou ausência. Além disso, o componente quase principal, dependendo da pessoa que cozinha: tempo psicológico ou cronológico, fica a seu critério, que será base do recheio da saudade. Uma boa dose de ansiedade e carência emocional para fazer o confeito. Para enfeitar o resultado final com requinte, você pode usar músicas depressivas, dê preferência às que façam alusão ao objeto inspirador do cumprimento dessa conatividade, e lenços molhados de secreção nasal. Deixe aquecer pelo travesseiro e colchas, e molhar pelas lágrimas por horas e está servido. Posição fetal para saborear o melhor do bolo.


Texto de: B.

Deixei de ser Poeta

Dos últimos sintagma que escrevo,
Percebo o relampejo da inspiração,
Pois, nessa função poética e não reconhecida
O tudo serviu de nada à autoestima,

Daquele que escreve e produz
( Obrigado Gregório pela Chama Fria]
Em folhas brandas de palavras azuis
[ Sérgio Blank agradeço por me mostrar a poesia]

Percebi que não tenho o famoso Talento,
sabor chocolate,
mas a quem lê o que escrevo o sentimento que ficará
É saudade

Por isso,
Encerrarei despedindo-me,
da função de poeta-aprendiz,
Recitando o “Sem Título”,


Do Dois pontos:
ponto.
& vírgula,
Lição: [Re]aprender os nuances da vida!

Texto de: P.

Stop at the Green One


Quanto mais eu corro, mais paro

Corro e paro

Na mesma linha não linear

Eu sigo em busca do tempo.


Sábios são aqueles que sentem

Sem sentir; paradoxo do dia

Que não inicia

Que não termina

Que não possui meio

E ainda sim chega ao seu fim às dez e vinte.


Seria o repetir um fardo desprovido de viver?

Prazer, sou eu quem vos falo

A voz dos minutos não gastos

Porém passados ao entardecer.


Cansei; canso; cansarei

A pausa há de ser pausada novamente

Fadado está o sinal verde à frente

Assim como o cinza do céu de meio dia.


O mundo podia ser menos azul;

A vida menos amarela,

Quisera o louco mais branco em sua mente

Mais vermelho do que há em seu coração.


Para não esquecer da ironia, afirmo:

Perde a graça na própria maestria

Dizer o que já foi dito

Intensifica o banal e redundante

Do instante já esquecido em sua retórica

Agora epitáfio.



Texto de: F.

"O Espelho"- Serial "curtinhas"


Acordo cedo, nada além da rotina pela frente. Olhar o relógio, levantar da cama, com certo esforço, encaminhar-me direto para o banheiro ainda sonolenta. Ergo a cabeça e encaro o espelho. O espelho! Muitas definições ouvi a respeito desse fabuloso... Fabuloso o quê? Escuto ser a janela da alma. Ser uma porta para nosso interior. Ou ainda, tamanho absurdo, um reflexo de nossa imagem, nosso parecer. Bem, saibam que muito me indaguei sobre o meu querido utensílio, o espelho. Seria pura luxúria chamá-lo de confidente. Loucura considerá-lo amigo. Mais maluco ainda encontrar nele certa cumplicidade. Porém, dentre todas as insanidades que eu poderia apresentar, a maior seria não reconhecer o confidente que me foi quando eu só soube encará-lo, compartilhando minhas lágrimas. Negligenciar a amizade que senti pelo espelho todas as vezes em que me senti realizada e lá estava um sorriso em sua face. Toda a cumplicidade de que não tenho vergonha de esconder meu corpo, minha intimidade, de alguém que, mesmo sem ouvir a minha voz, escuta o meu coração. Portanto, se me perguntarem como se define o espelho, eu direi que o espelho não é um objeto, não é uma janela, nem mesmo uma porta! O espelho é uma pessoa! E te asseguro: é a pessoa mais importante que já existiu.


Texto de : Sízera Souza (visitante)

(Sem título)


eu quis chorar

eu quis ajudar

eu quis plantar

eu quis regar

eu quis colher

eu quis crescer

eu quis ter lugar

eu quis cessar dores

eu quis evitar escombros

eu quis ser cúmplice

eu quis descansar

de mim

eu quis sair daqui

eu quis

quisera eu

não ser assim.

 

Texto de: Mirnah Abrantes (visitante).

( Ipsis Litteris ; publicação original de 22 de Fevereiro de 2016)

Incalculável ( ao som de simples assim)

Separo o insuperável,
Recordo-me do teu sorriso,
Não forçarei o vocabulário,
Te mostrarei o incalculável

Afinal, não se premedita histórias,
Procure e leia bons livros,
Não se premedita amores,
Procure-o no recente conhecido,

O incalculável é algo das inexatas,
Sem métodos científicos tolos,
Legislativamente precioso

Não se precisa de Cartas,
Não há necessidade de Paciência Solitarie,
Pra quê complicação?
Espero que sempre te surpreenda.

Texto de: P.

Contos fantásticos do João da limpeza


O showman prepara os holofotes, ajusta os microfones, tudo deve estar em suas devidas posições. O público aguarda ansioso, e com certa apreensão, os próximos passos. Ele inicia:


-Senhoras e senhores de toda a plateia: grandes e pequenos, feios e belos, jerimuns e macaxeiras, boys e boias, prestem bastante atenção! A partir de agora começa o famosíssimo “Um breve momento, dum breve lugar”.


Todos arregalam os olhos de alegria, era chegado o grande momento. Retroprojetores criavam o cenário sobre a frágil lona, enquanto gelo-seco era utilizado para criar o efeito de fumaça. Confiante, continua seu discurso o apresentador:


- Do alto de uma goiabeira, Arthur observa o estrelado de hoje à noite. O céu torna-se diferente à medida que mudamos nossa localização, mas Tutu sabia disso. A sua localização era perfeita: o seu lugar. Não era o comum, o banal ou o pacato como imaginamos o perfeito viver, porém encarnava o prestígio de deter o tempo.


(Pausa para a retomada de folego)


- Todos os moradores da região eram, enfim, presos à condição da imortalidade, da atemporalidade. As crianças sempre foram crianças, e os velhos sempre foram velhos. As preocupações eram as mesmas, e nem por isso perderam relevância em sua repetição. Os trejeitos, as mentalidades, a cultura, as formas, o tudo, o mesmo. Havia, no entanto, um valor para tal: A determinação da vida que valia por si, duma finalidade que tinha por fim ela mesma, do ser e sentir “eudaimônico”.


O público acompanhava com pouca atenção os bravos do narrador. As barraquinhas de pipoca e doces eram protagonistas, enquanto a história em si atuou, até então, como uma coadjuvante de luxo. O locutor falou mais alto, então:


- Antes que questionem, afirmo: Não, os moradores não estudaram a filosofia da Antiguidade. São atemporais e separados do mundano, ok? Detinham o conhecimento pelo instinto do que faziam, sob a condição do achismo. Viver sem a busca por outra busca, ou sem a angústia do incompleto, era um fardo adorado por todos. Desconheciam e temiam, portanto, a vida comum de nós mortais. Ainda assim, o maior argumento para o experimento da mortalidade (daqueles que inocentemente acreditavam em sua beleza) era também o mais inútil: conhecer o céu duma brevidade vivida (o que são 100 anos para quem está em todos que existem?).


O interesse ressurgiu: talvez agora esse velho chegue ao ponto de tudo, pensaram. Ouviram, mais astutos e de barriga cheia, a continuação:


- Arthur sabia de tudo, por isso resolveu agir. Sua goiabeira imensa, fertilizada por cartas e brinquedos enterradas, dava acesso à visão de tudo que existiu ou existirá. As perguntas que lhe viam à cabeça, não de forma pensada, mas de forma sentida, ressoavam algo próximo de: Seria o tempo um fator determinante da forma? Seriam as virtudes mutáveis pelo tempo? A minha finalidade de viver é a mesma quando não analisada em base do impassível? Só havia um jeito de descobrir, e o fez, ao tomar para si a responsabilidade de transcender as bordas da existência. Iria voltar dimensões em busca dum breve momento que, por qualidade maior, passasse. Pulou do galho mais alto para o ponto mais baixo, e saiu.


Aquele papo todo não entrava na cabeça da galera. Muitos questionaram o sentido de tudo que estava sendo dito, ou se havia verdade em algo. O dono da palavra prosseguiu:


- E vocês desejam uma explicação para tudo isso agora? Verossimilhança? Poupem-me de suas bobagens, ok? Quietinhos! O tio quer continuar a história, vamos lá? Ele distorceu sua dimensão ao acelerar suficientemente seu próprio corpo. Saiu em busca do estrelado da mortalidade, e chegou ao destino: Sua própria casa! Tudo parecia ter dado errado, quando de repente percebeu que não estava apoiado. Apoiado ao nada, por melhor dizer, observou que estava ali apenas, nem aqui nem lá. Estava e observa, só. E viu sua mãe com rugas; viu seu irmão cansado ao voltar de algo que se assemelhava um trabalho braçal; viu seu pai doente e encamado; viu a si na goiabeira pulando do galho mais alto ao ponto mais baixo... E caindo em uma cama de almofadas velhas. O mundo breve parecia complicado, de tanto quanto os que sofriam dos males que podia ver. Um olhar no horizonte lhe deu novas perspectivas. As pessoas temporais eram, em primazia, frágeis, e ainda assim possuíam a maior virtude de todas: Uma alegria verdadeira, daquelas de quando se tira o sapato apertado do pé, ou de quando tomamos água gelada após um dia quente e cansativo. Tais expressões existiam no viver atemporal, no entanto sempre com a mesma carga e o mesmo melhor e pior.


Ninguém suspirava. Era chegado o momento final, o ápice. As balas estavam jogadas aos cantos, as pipocas aos cabelos e aos ventos. Qual seria o desfecho? Não sabiam. Seguravam o pouco de ar que lhes restava no pulmão para ouvir o narrador dizer:


- Dessa forma, Arthur percebeu a verdade: A perfeição é imperfeita por qualidade primeira, pois é imutável. Determinar possibilidades, mesmo que essas sejam as mais possivelmente adequadas ao viver, é uma tolice sem precedentes; a alegria maior vem de errar e saber que seus erros foram obtidos de tentativas próprias e sãs. Não há um lugar de conforto sequer na vida de todos os mortais, mas há um desconforto tolerável pelo preço maior: A liberdade de escolha, a dúvida do próximo passo, o despertar dos momentos difíceis, e o incalculável achado do imprevisto. Tutu não desejava voltar, queria apenas observar os humanos. Esgueirou-se ao céu (que esqueceu há tempos) para emitir uma nova luz no estrelado dum breve, dum lugar, sem finalidades: Você escolhe, toma posição, não tem espaço definido, é angustiante, porém com uma felicidade verdadeira entre os meios da procura incessável. Essa sim era a vida que realmente valia ser vivida: sua única condição era ser buscada para tanto.


Terminou ali o congresso dos grandes empresários das grandes multinacionais. Enquanto retiravam os doces e pipocas de suas vestimentas, engoliram o soluço (advindo do refrigerante) e agradeceram ao palestrante por sua ótima apresentação. Ninguém nunca ouviu falar desse tal evento na empresa, só o João da limpeza. Se bem que, pensando aqui, o João conta umas histórias sem pé nem cabeça para a gente, de vez em quando, sabe?


Texto de: F.


Pétala de Flor


Pétala de Flor misteriosa,

Andares por outros países,

Quando apareceu de perfil

Na minha vida virtualíssima e silenciosa


Aprecio o teu brilho divino,

Sempre esperta, esbelta e poética,

Deus a desenhou e empregou,

O ônus das raras qualidades.


Lembro-lhe de tua espontâneidade,

Mas registro que sou um Poeta de Cór,

Escrevo por paixão!


Agradeço-te e espero,

Que reconheça a si nesses versos,

merci d'être mon inspiration.


Texto de: P.

Todo êxtase no sinuoso


De código Três numerado

Ah, voa adoidado o Passarinho verde

Perdido e incompleto

Não tem outro rumo:

Toma todos

E segue reto.



Um rolo de pensamentos juvenis

E atitudes senis intermitentes,

Canta para ouvirem aos setes cantos

O bradar de mais alta maestria

Da devassidão A mais tola

Embolia do enquanto.


Não, não cai de seu voo

Gauche mesmo assim

Mas vive a fantasia de que

A revoada ainda está por vir.


E no auge de toda a barbárie

E em meio aos ventos que sopram contra

Sem nenhuma vergonha expõe

Sua rudimentar finesse ao olhar a paisagem.


Texto de: F.

Peço


Peço ao artista mais vida,

Peço a Deus Malandragem,

Peço ao Brazil Liberdade.

Peço-me Coragem!


Sinto saudades de que não possuo e

Súo Frio. Tenho medo:

Do destino,

Das Margens Plácidas,

Das escolhas erradas.


Peço-lhe um copo D'Agua gaseificada,

Glup, Glup,Gulp!

A epiglote fecha,

As lágrimas rolam,

Procuro o filtro da Alma.


Texto de: P.

Alguns vinténs de vontade e zelo


Prezados leitores, estou perdendo a minha sanidade. Não há mais um dia sequer que eu não duvide da sobriedade da vida, de minhas atitudes e do dia-dia em si. Por vezes desejo ver o mundo de forma banal novamente para, enfim, descansar de tantas surpresas- nem sempre agradáveis. Um jargão traduz bem meus sentimentos: “Que no, que no, que no nos representan!” , como trajado pelos espanhóis em protesto contra a monarquia e suas hipocrisias. Pois bem, tive minha atenção voltada – na semana que passou- para um assunto importuno: Pedintes de rua; de terminal; de comida; de bebida; de crack; de cachaça; de amor; de igualdade social; de dinheiro para faculdade; pedintes de glória; de atenção; de esperança; obrigados ou não.


Diga-me, mizífi aiacolá, se isso existe antes mesmo de você se entender por gente, por que tanto pirlimpimpim? Talvez a igualdade não seja algo palpável, nem mesmo o mundo tenha sido concebido para que tivéssemos as mesmas oportunidades. Trabalhar com as circunstancias e dificuldades é uma das maiores dádivas do ser humano. Verdade! Pois é. É... E dessa forma caminhamos para ignorar a temática: Relevar a existência de uma problemática não anula seu valor, muito menos a diminui. Por natureza, incomoda-nos o fato de ver um ser humano sofrer, e buscamos alternativas para justificar os podres do mundo: “ Esta senhora tá aí todo dia pedindo dinheiro, podia estar trabalhando! ”, “ Esta mãe criou 5 filhos, deve estar querendo o auxílio do bolsa família, vai gastar tudo no bar! ”, “ Esses meninos pedindo dinheiro ao praticar malabares, podiam fazer algo digno! ”, e assim por diante. Qualquer ser pensante irá questionar o porquê de uma senhora de 72 anos (de ruim oratória, capital estético baixo e um curriculum vitae que não cobre um décimo de folha A4) estar todos os dias num mesmo local a pedir- e a resposta torna-se banal.


A desigualdade social existe, e provavelmente sempre existirá. A redução de seus efeitos, porém, parte do já conhecido: Políticas públicas, parcerias e auxílios de órgãos voluntários, suporte de capital – não só dinheiro, como também pessoas e ferramentas-, e outras tantas atitudes. Necessita-se, portanto, de grande esforço e mobilidade para o alcance de resultados relevantes em tal âmbito, ninguém discorda. A partir do momento que ignoramos o tema, a fim de acreditar em falácias – amenizadoras da verdade e de nossa própria culpa-, declaramos a falência do próprio ser: Todos pedimos, em maior ou menor grau, por algo. Todos. Pedir é, por vezes, um ato involuntário, mas sempre uma necessidade humana. Sim, há momentos em que não é possível ofertar nenhum tipo de ajuda. Cabe a nós lembrar a todo tempo o quão humanamente estamos ligados a tudo isso.


A senhora dos 72 estava no terminal em busca de dinheiro. Os comentários do segundo parágrafo são reais, e foram proferidos logo após eu retirar alguns poucos centavos de minha mochila para dar-lhe algo em favor. A senhora poderia gastá-los com crack, maconha, cocaína, ou sei lá mais o que o preconceito mesquinho produzir: Que diferença faria? Ela não irá deixar sua condição pelo fato que lhe doei algo, tampouco se todos tivessem feito o mesmo. Olhar em seus olhos e, mesmo sem dizer uma palavra, bravar um “ eu confio em você”, essa é a chave para silenciar -naqueles breves segundos- qualquer hipocrisia ou falácia do mundo moderno.


Existe, mas não porque eu a ignoro. Existe, mas não porque eu nunca tentei ajudar. Existe, mas eu não irei mentir para mim - a fim de silenciar ego ou culpa. Existe, e existirá depois de mim, mas meus filhos e netos irão fazer o certo – basta comprá-los um espelho, afinal, e perceberão o que já percebi. Por fim, existe antes de qualquer direcionamento ou momento políticos, e são reflexos da pura natureza de quem somos: Pedintes e existentes.


Texto de: F.

Red Apple

A doce ilusão de uma maçã vermelha
Saborosa e charmosa pode esconder
Vitaminas dolorosas ao som da bossa nova

Compreender o incerto,
Observar o invisível,
Ligar o rádio numa frequência intransponível:
De Amores,
De paixões,
De solidões.

O Poeta sente as avitaminose do mundo:
Não ama e nem sonha,
É cético e eclético,
Escreve palavras que iluminam a semente
Pequena do seu olhar.

No coração ainda permanece,
A última que morre.

Texto de: P.

Um mimimi atuante e necessário


Maquiagem, preparo,treino vocal.Exploração de palco.Itens afins.Luz, câmera, ação.Peça.Peça! Anseie! Eis o momento em que ator passa a sua maior vexatória: Não conseguir interpretar o próprio personagem, seja por incapacidade, ou pelo medo em si.Mas e se ( e se) não fosse um ator o responsável pela interpretação do personagem, muito menos um amador? E se a vexatória maior dessa interpretação vier de um especialista em ser –apenas- o seu próprio estereótipo? Bem expressivo, penso. Ainda sim, caro leitor, é nosso papel transformar essa rotina estilizada (sob personagens estabelecidos previamente) em um viver mais orgânico. Isso tudo antes do pesar maior – da morte vergonhosa de um nunca sido. E por que a extensão de tanto? Apenas para introduzir um fato também irrelevante que me ocorreu hoje.


(It's a prank, bro)


-Por favor, não vá embora, peço perdão por minha reflexão de tamanha prolixidade- Disse nenhum escritor antes.


Pois bem, dado meu apelo sensacionalista, podemos continuar.


Era uma vez uma psicóloga extremamente radicalizada a atuar em seu estereótipo: a de psicóloga. Qualquer seita extremista, organização reacionária, levante ao alto bordo ( ou o que mais lhe convier), não era párea para sua vontade de extrair o máximo do senso comum figurizado em seu papel.Sim, ela me atendeu.Tinha o semblante mais entediado da terra, como manda a ficha.Arcava com o martírio de receber os plebeus visitantes do DETRAN sem ao menos expor uma brecha de sua personalidade- a não ser o próprio desprezo pela passagem do tempo.E assim fui, confiante, responder as perguntas dispostas por ela.Pouco importa, Gandhi poderia aparecer e seu humor permaneceria o de psicóloga.Dava-me tristeza. Era a sedução irresistível da rotina atuada. Em seu primeiro mandamento, fazei-vos um papel e nunca mais ir-vos-á surpreender com o dia-dia.


Mas toda peça acaba, não é mesmo? E quando a dela acabar? Não, não é possível viver a fachada do criado ao máximo para sempre. Tudo enjoa, regurgita, se demais. E acaba quando se percebe não lembrar o que foi antes do personagem, muito menos quem será depois. Há existência pior do que ter suas vontades ditadas por um outro você? Ela chegará a esse ponto, e o destino a fará na prensas do já conhecido, da rotina faceada previamente em roteiro.


Por isso, prezado leitor, faço de minha observação um aviso: Há mais coisas entre o céu e a terra do que a aceitação fácil dum script próprio.Premeditar a vida é um erro quando as surpresas que tanto lhe podem ensinar são deixadas de lado. Sim, nem todas as surpresas são boas. Porém, é preferível pagar para ver do que jogar na retranca e nunca mais sair ( ou sair no conhecido,apenas).


Para não deixar de lado essa nova linha editorial nonsense e profunda, visto a carapuça e digo:Até este final teve um quê de figurizado.Ao menos eu tentei.


Texto de: F.

Oito sem flor

Com todas as dores
Mortes
Lágrimas
E meias palavras

Moça de cortes e feridas
Expostas
Na alma e no corpo
Quebre o esteriótipo

Mais que migalhas queremos
Um dia que alcançaremos 
O direito de ser
Mulher.

Texto de: B.

DIRE [ I] TO

Ando dire[i]To  pela rua,
Percebo Dire[i]to a verdade nua e crua
Isso seria uma aventura?

Será que tenho o Direito de estudar?
Será que tenho o direito de pensar?
Queria que o mundo me desse o Direito de acreditar na realização imediata dos meus sonhos e desejos... Bocejo:
O desejo. O recomeço 



Sem pontos, porém com vírgulas

[ Com o lápis continuarei escrevendo ]
O direito de por minha história
Nas páginas em branco da vida.


Texto de: P.

A porcentagem magnânima do esquecimento


Na penumbra dos dados jogados,


Assim:Começa, meio que é o fim, torna-se difícil...


Bambeia: Difícil se torna.Assim,fim é o meio que


Começa: Termina e torna-se.É assim, fim.Difícil.Bambeia –


Meio que: Essa permutação repetida,


chata,


começada,


tornada,


é terminada.


Sobra a regra "1/ Possibilidades": Para registrar a existência do espaço amostral na ocorrência dum evento .Bem sabemos que todo o cansaço de jogar (e jogar, e jogar) novamente no improvável já foi esquecido- ante o sucesso do apostador.


Texto de: F.

O rúbido sentimento por trás das câmeras


Um dia, um mês

Um ano, quinze minutos

Não sei se aceito bem

Essa filosofia do só talvez.


Mas estava lá, na escada

Inerte, rolante

De uniforme mente variado

Adoidado num anseio tolo


E no alto de tantas barreiras

E no cume de tantos pensamentos

E na beleza de seu escarlate altivo

O único ideal que sobra, vivo:






Eu caí por você, anafórico, à espera de um talvez.


Texto de: F.

Continua meu bem

Ausência de palavras
De tranquilidade com desprezo
E cooperação de bons dicionários
Para citar e caracterizar
A singularidade do seu
Ser sua

À espera do retorno antes da partida
Ao desejo infindável de viver 24 horas
Junto de ti ver o futuro
A beleza do presente
Quero-te tanto
Lá quanto aqui.

Texto de: B.

3 dias ponderados de um cupim não revolucionário.


Dia 1

As folhas do cajueiro caem em cada canto de nossa moradia. O retrato do pacifico de um pacato viver, repetido para tanto. Não há tranquilidade maior do que o exercício oligárquico bem manipulado. Assim, vivem rodeados de nosso ardor os protegidos da coroa: os grandes, os nobres, os reais. Os... Restam médios-pequenos-responsáveis por sua própria condição (não é mesmo?). Acreditamos apenas em um talvez mais fácil daqui a sei lá quantos anos.


A verdade, bem verdade de minha amargura, é que a tribo cupinspalha esquece seu passado de lutas. Não por acaso aceitamos as formigas como chefes da Grande-fonte-verde-marrom-onde-todo-mundo-mora. E já até houve causas para arriscar as fichas: Uma talvez casa. Hoje, em maior ponto, o lar é somente um ideal fictício. Não há segurança no dia de amanhã, muito menos na saúde de hoje.Em algum momento irei, e alguém irá me substituir.


Mas e a memória? Todas as revoluções ocorridas foram um trocatroca de poder e domínio, mantenedor de suportes sociais para o conforto de poucos. Ninguém quer falar disso, já sei: É um papo que incomoda (do tipo evita-se), mas não vai dar para fugir além dessa vez.


Dia 2


Todos os cupins se reúnem para a checagem diária de pertences. Aproveito os dezminutos antes dos guardas aqui para esconder itens de minha própria revolução – uma verdadeira. Irei desmascarar as formigas e toda a mitologia criada diante de seu altar: Não, não dependemos de seus alimentos (poderíamos facilmente produzir os nossos), e não, não somos fracos (estamos em maior numero e temos união suficiente para atacá-las).


-Nossos ancestrais já bravaram a grandeza cupinspalha a todos os cantos, devemos retomá-la! Viva a revolução! * pequena pausa para a retomada de fôlego* -


Sim, farei o possívelnecessário para tanto. As formigas fazem o bem, diz o povo. Elas cuidam da administração, dizem. Vamos ver o que dirão amanhã.Feito o feio de uma feiura vingativa, ninguém poderá deter seus frutos...


Por enquanto retomarei a minha produção cabal de miçangaspalha e decorativos – uma forma simplória de diversão nessa sociedade maltrata...tivadora?


Dia 3

É hora da verdade. Ponho um roupão de camareiro-real-das-formigas, e me encho de determinação para invadir o palácio nobre da Grande-fonte-verde-marrom-onde-todos-moram.Estou preparado.


Adentro o QG dos vilões... Era mesmo para ser tão fácil? Espera, esqueci a câmera (como pode alguém expor provas de algo que não pode ser visto?). Volto para casa. Devo cochilar sobre a rede? Não, tenho uma missão maior.


Acordo. A rede estava mesmo interessante. Nada pode me impedir agora, devo seguir obsti... obsti... Com foco e deter os opressores da igualdade. É o fim! Adentro novamente o palácio (será que eles não me acham digno de suspeita?) e acesso as partes superiores. Much easy, Hermano. Basta agora encontrar a sala de arquivos e, talvez, tirar fotos das pilhas de comida.


Está aqui! Por fim terei as provas necessárias para inflamar a massa e conquistar o troféu da revolução. Espera, alguém adentrou a sala. É uma formiga. Uma formiga? Formiga-me. Meus olhos simplesmente não acreditam no que via: Um cupim trajava a fantasia de nossos opressores. Não é possível. Poderia. É bem provável, já que, nesse meiotempo, outro cupim se revela por baixo de outra vestimenta impostora. Rá! Não, espera, qual era meu objetivo mesmo?  Desmascarar a opressão! Se bem que bateu uma fome aqui...


- Dona formiga, digo, seu cupim, tem um lanchinho ai para oferecer?


Não sei bem porque me revelei, mas agora já foi. Atiraram em mim. Essa história só está sendo escrita porque não morri, evidentemente.A vibe da rede estava mesmo interessante...


Texto de: F.

O homem das associações - Serial "curtinhas"


Linguagem hermética se correlaciona com uma visão inata
Escrever, citar e falar para poucos é uma percepção inadequada 
Qual a utilidade em utilizar a arte poética para nada? 

Entenda o meu descontentamento 
A função da cultura é levar as pessoas o entendimento
A raridade intelectual, o ato de pensar inteligentemente.
Por isso não sejais vulgar em vossas colocações 
O jovem poeta carrega consigo os sermões.


Texto de: P.

O cupim não revolucionário: Uma memória contramaré.


Toda competição é utilizada, em primeira instancia, para expor diferenças. Os atributos avaliados, estes sim, são a grande alma do que é competir. Vencer não é fácil, mas é. A distinção entre vencedores de várzea e de campeonatos mundiais – além da primazia de suas habilidades- ocorre pelos objetivos: Esses irão definir o curso de sua própria história. Não, não favoreço aqui os bens dotados, mas sim aqueles que desejaram ser mais: Os Contramaré.


Aqui bem próximo da Grande-fonte-verde-marrom-onde-todo-mundo-mora havia um cupinspalha contramaré, responsável por treinar grande parte dos pupilos de nossa revolução diária. A sua história é, de fato, uma margem de reflexão:


“(...)

,

...

,


araçá- rosa, uma de belo porte. Não uma que fosse símbolo de riqueza, ou algo do tipo. Araçá, apenas. Morava com outro irmão num estandarte da pacatidão, ao mesmo tempo vívido pela pureza do ar que respirava. Mas pouco importa, estar num visível vazio não distingue ninguém, bem sei. Isso até começarem as preocupações do que ser e para onde ir.


A fome angustia qualquer um. A fome angustia. Angústia. Não há nada pior do que uma infelicidade causada pela falta de vitórias, que são escassas quando não possuímos domínio sobre o que lutamos. Ele lutava por uma vida melhor, por sua mãe,por quem prezava, pelo seu bem. Lutava, pois acreditava na veracidade da meritocracia – e tendia sempre a crer nela antes de pessimismos infundados. Sim, havia pessimismos. Não há como seguir em frente sem, algumas vezes, não se assustar com a dimensão de suas próprias pretensões. Qual é o nosso desejo, afinal? A várzea ou mundial?


Assim seguiu, querendo. Havia centenas de caminhos pré-traçados para o seu objetivo, milhares de dicas infalíveis. Usou o seu próprio “vamos assim” adaptado, numa liturgia de tentar pelo seu jeito torto e gauche, torto e gauche, torto e gauche, atingir. E falhou. Várias vezes. O pormenor estava logo ali, podia mudar os planos e viver a pacatidão que lhe foi proferida desde o nascimento. Mas não a fez.

,

...

,

(...)

”.


O vago vale por si, é isso. Não há fogos ao final, e nem posso afirmar que todas as suas escolhas foram as mais certas, muito menos glorificar tal posição como intangível e memorável para todo sempre – mesmo que para mim seja. Sim, retifico essa verdade: Vença pela vontade, mesmo que lhe faltem formas e lhe sobre angústia. Use o que resta para atingir o objetivo - o principal. Não será o ego responsável pelo sucesso; tome nota de sua própria condição como fonte de inspiração para as batalhas futuras. Sinta-se mal pelas falhas, mas não desista. Mesmo capenga, com pouco, é possível chegar. Afinal, o mundial não é tão distante assim quando as lágrimas que escorrem em seu rosto forem também fruto dos sorrisos de quem você preza.


E é por acreditar em você que busco forças para erguer-me novamente. A revolução pode estar longe do fim, as formigas ainda dominam a nossa tribo, porém é sempre tempo de ir além.Sim, falho. Mas falho porque tentei, e não quero deixar a sua memória perder-se no tempo.


Obrigado, pai, por tudo. É por você que hoje, agora, eu visto a carapuça da humildade para uma nova batalha.


Texto de : F.


Raízes Capixabas

“E “ vogal  inicial da palavra Estado
“ S” consoante inicial da palavra Santo
Povo querido, trabalhador, Capixaba,
Orgulhe-se da sua terra: Espírito Santo.

Terra reconhecida, admirada e respeitada
Agradeço a Deus por ser Capixaba,
Lembro-me de Nelson Mandela e do Papa,
Que aqui estiveram deixando-nos a simplicidade da alma.

Rara áurea que emerge das ondas do mar,
Do alto do penhasco possuímos o Convento Da Penha,
Que sempre nos resguardará.

Guarde em seu coração,
Moqueca Capixaba no Espírito Santo
Tornou-se tradição.

Texto de: P.


Ode adornado escuro - Serial "curtinhas"


Alguém gostaria de apresentar

Nostalgia ou apelo emocional,

Memória indolente ou homenagem

ao sistema de cotas do século XIX?


Texto de : F.



Santa dor


Uma criança que acreditava em heróis, na fada do dente e no Papai Noel - nada incomum até aqui - e em amor eterno. Embora crescesse e conhecesse os sentimentos belos da vida, experimentava a cada paixão o gosto áspero do processo de amar. Crescida - mas de infantil mente-, irritava-se, desistia em meio a novas tentativas.


Amar requeria ceder à razão, mudar costumes, deparar-se com imperfeições e falhas, e falar uma nova língua. Sim, a linguagem emocional da pessoa imperfeita como ela. Começou a achar que a causa dos fracassos era simplesmente sua existência, sua função de vida, e gerou um bebê não palpável, dor, a quem atribuiu nome. Toda a pequena Vila Melancolia percebia o que dor provocava em sua mãe. Arrebentava seus olhos de tristeza com água, trazia criatividade para escritos quase sempre sofridos, e alterava sua posição para horizontal e encolhida por muitas horas. Fragilizava reações à fala alheia, e lembrava cada fracasso amoroso- o último deles por quem foi gerada.


Devido à famigerada transformação, o bebê foi divinificado, e a crescida criança zelou por ele até seu amadurecimento e primeiro encontro com angústia e desespero em um bar de qualquer esquina. A intimidade, depois de alguns goles, os levou à conexão sexual apaixonada, que formou um bebê, substituindo a utilidade da protetora de dor nessa narrativa: foi nomeado Morte.


Texto de : B.




Nota do editor: Quanta melancolia... Fiquei deprê depois de editar :(

Be Homem

Tal qual meu amor
Crescente era a lua do sábado treze
Crescente eram as emoções - a dor
Avante espera a quem se preze

Mantive a calma

Ria o coração de rodoviária apressada
Embora a alma segurasse
Lágrimas de saudade adiantada

Falha de agá maiúsculo
A moça não conteve o choro
Acordes ou palavras em papel como espetáculo
Ao homem em crescente forro


Texto de: B.

                             

                                Toda a chatice dos milésimos sortidos


A importância dada ao pensamento racional – no dia-dia, sob a ótica da normalidade - está intimamente ligada ao medo do intuitivo, do irracional. Talvez o café desta manhã não tenha produzido nenhum efeito energético em mim, ou talvez a minha busca de diversificar o ser e a escrita tenha, mas logo aviso: Essa crônica será levemente tortuosa.


O assunto que vos trago ,leitor, perpassa a minha vontade de representar analogias e metáforas: O sofrimento pelo querer pensado, e a improbabilidade de satisfazer desejos não tão necessários. Compreendi, ao longo de minhas leituras neste inicio de ano, que grande parte nossas escolhas são determinadas por um devaneio inconsciente, além do controle ou do caráter critico. As escolhas de toda uma vida podem depender de frações de segundos, no que a ciência afirma, e advirem de um “gap” biológico de nossa evolução. A associação automática de ideias, o efeito priming e muitos outros termos são utilizados pela psicologia para explicar tais efeitos. E por que escrevo este catatal fatos? Apenas para ilustrar o quão bobo é o ato de sofrer demasiadamente por atitudes impensadas. Todas as atitudes passam, em primazia, por uma avaliação intuitiva. Cabe a nós, no entanto, buscar a coerência num incoerente querer – definido em milésimos de segundos.Não há nada mais chato do que não possuir controle de suas verdades, aquelas defendidas por unhas e dentes, mas no fim inverdades.Aceitar tal fato depreende um esforço inimaginável de ego e orgulho. 


E é isso...Acabou? Sim... Já? não. Deter o pensar não é uma tarefa fácil, sobretudo para os doutrinados a atropelar qualquer circunstância ( e são mesmo todas as circunstâncias atropeláveis?).Resta esse amargo na boca, provados por tantos em tantas diferentes formas. Então é seguir em frente, com um azedo inexorável,porém tangível à realidade.Esse gosto que só é ruim porque tornaram ruim, por escolha, intuitiva ou não.Não definiria a chave desse labirinto como aceitação ou percepção de uma verdade absoluta, mas sim um segundo olhar no já olhado - e provavelmente nunca visto .


Dessa forma, renego ao tempo passado alguns vários tabus.Sobra, portanto, a tentativa de produzir um novo ser, capaz de transcender preconceitos de sua própria criação – e aceitar o pragmatismo de uma vida sem firulas.Nem sempre o obvio é certo, apesar de sempre acreditarmos na obviedade de uma felicidade espontânea e atemporal. Seria a autorrealização fruto de um trabalho racional em uma vontade definida em segundos? Não sei. Acreditar numa roleta russa do querer já se tornou piegas, e me deu uma vontade inconsciente de cair fora daqui.



Nota: Sim, voltei a escrever.


Texto de :F.

Não mais

Não mais pranto
Do horror da data
A gratidão do pouco
Dos poucos santificados
Em metamorfose ambulante.




Não mais pré

Conceito limitado e generalista
Mas amor 

alegria 

e paz 

e bem
Que meu trouxe
Ao quase falido 365 

na décima nona vez.


Texto de: B.

                                                                                          Estrelita

Eu tinha por volta de 10 anos quando brincava na rua com meus amigos, sob um céu nublado e um breu assombroso que tomava todo o Araçás. Nós tentamos resistir, mas aos poucos a brincadeira perdeu a graça e acabou acompanhando o ambiente em uma valsa triste. Tão entediante... Tão melancólico...

Eis que surge a figura de uma cadela vira-lata, com uma felicidade a qual não podia conter. Ela acabou alegrando nosso dia com suas peripécias rua abaixo. Como possuía uma pequena estrela no pescoço, resolvemos dar lhe o nome de “Estrelita”. Tudo normal, a não ser pelo fato de que ela me seguiu pelo resto da vida. Pode parecer bonito, mas tem um detalhe: Todo vez que Estrelita late por mais de 7 segundos , alguém morre. Um grande fardo, não acha? Por sorte a cadelinha não costuma nos dar esse desprazer. Essa semana ela acabou inventando de latir por longos 10 segundos. Infelizmente um homem faleceu com seis tiros na cabeça, alguns metros aqui de casa .

Certa vez Estrelita resolveu uivar durante a virada de Domingo para Segunda. Imagine o desespero desse cronista quando a infeliz atormentou meus ouvidos durante uma noite inteira. Por sorte, foi um falso alarme.

Já vi essa pequena olhar para pontos fixos onde não havia absolutamente nada. Especulo que ela veja os mortos aos quais é fardada a anunciar. Talvez alguns mortos não gostem de suas surpresas. Talvez alguns mortos não queriam morrer. Que mal ela tem? Nenhum! A cadela late por impulso! E todos vão ter sua hora um dia.

Porém, vou te dizer uma coisa: Eu, você e a cadela dividimos a mesma condição. Sempre haverá um fardo para ser carregado, mas isso não te impede de ser feliz. Alegre-se com as coisas pequenas, mesmo em dias nublados ou breus assombrosos. Esforce-se para isso acontecer. Porque no fim não são fardos que irão dizer quem você foi, mas o legado que você deixa para quem fica.Ontem Estrelita comia restos, e hoje ela come biscoitos.

Um bom resto de semana a todos,
F.


Texto de: F.

A Pátria de Cinzas

A Manchete dizia: “ O período carnavalesco emerge na sociedade brasileira como Época de esquecimento das mazelas sociais”. Confesso que ao terminar de lê-la fiquei bestializado. A palavra “ bestializado” – recomendo que leia pausadamente – transfigura-se como adjetivo que me perpassa intranquilidade,ou melhor, insatisfação. Sinto-me enganado igual ao Policarpo Quaresma, e reflito sobre o motivo.

No terceiro trimestre de 2015 o país vivenciava uma crise política, iniciada pela repercussão da Operação Lava a Jato, e “ findada” no processo de Impeachment. Sendo assim, esperava que presenciaríamos o florescimento de um sentimento de aclamação por mudanças, e não dê comemorações Ocas ao som do single Metralhadora. Estou decepcionadíssimo.É meio que “ Esperar de quem não se pode esperar”.

Essa constatação, exemplifica-se, quando Pedro Negou Cristo três vezes. O apóstolo de pedra abandonou por três vezes suas convicções morais diante do medo. Tal postura permeou o feriado carnavalesco, pois o brasileiro vestiu-se com a fantasia do medo, com detalhes brancos de esquecimento, dançando com samba da imoralidade. Além disso,ele queimou o Corpo da Esperança, na quarta-feira, e espalhou as Cinzas pela Pátria.


Texto de : P.

(Primário)

                                                                            O profeta de sofá

Darlene chega em casa e vê o marido,sentado no sofá como de costume, fixado no que passava na televisão.Deixa suas compras de lado , guarda suas chaves , tira seus sapatos tamanho 38 ( mesmo tendo pés tamanho 42, era um prazer tirar sapatos apertados ) e senta no sofá.De repente uma palidez toma o rosto de Jorginho , como se algo houvesse lhe assustado :

- Darlene ,meu amor , eu tive uma visão – Disse Jorge ,como se ter visões fosse uma rotina.

- Visão do que, rapaz ? Tá querendo me assustar ?

- Darlene eu vi uma guerra , outra guerra ! E ela vai acontecer daqui a oito meses!

Jorginho havia sofrido muito com as guerras , apesar de nunca ter ido a uma batalha real.Seu medo era tão grande que chegava a desmaiar apenas com os estalinhos de seu neto - Sempre o perdoava – e os tiros fictícios da televisão.Quanto mais tentava esquecer , mais pensava em teorias para a destruição mundial.Hoje ele atingiu seu auge :

- Brotinho , pare com isso - Disse a mulher em tom manhoso - Essa história de guerra só vai te deixar paranoico.

- Amor, apenas ouça : Li no jornal que a Ucrânia estava vivendo uma tensão política.Aposto que a Rússia vai tentar tirar uma lasquinha invadindo o território.Depois disso os Estados Unidos irão se juntar com seu grupinho e tentarão impor sua vontade,até quando puderem usar suas armas para guerrear pela região.O mundo vai se acabar em bombas.

- Mas jojô , o que que a gente tem haver com isso ?

- Você não entendeu ainda ? Com todas as atenções voltadas para esse embolo todo , nada impede que *insira uma conspiração aleatória aqui*.

Darlene sai.Estava cansada demais para ouvir toda essa bobagem de seu marido, por isso vai preparar o almoço.Fez seu almoço sem tomates, porque eles estavam caros demais.


Texto de:F.


(Primário)

O não epitáfio de um casaco roxo


Meu nome é Arte Básica. AB para os íntimos. Casacos não escrevem, não pensam, não falam, não vivem, então considere isso uma atividade paranormal. Eu nasci em uma fábrica clandestina de São Paulo, mas logo depois fui levado a um lugar chamado Glória – que se assemelha ao Deserto do Saara – no Espirito Santo. Fui comprado. Meu dono é um homem pacato, sério... Preferia pertencer a alguém mais boêmio. Não importa, essa é minha história, tão minha e de mais ninguém.


Vamos. Devagar. Sem. Pressa. Um. Passo. De. Cada. Vez. Pois bem.


Já fui a lugares que vários casacos nunca sonharam em ir, como desbravador das ruas estreitas do Paul, escalador do Morro do Moreno e aventureiro das praças de Novo México. Também viajei para longe: Sinto saudades do Rio e de Minas. Espere, acabei de lembrar: É meu aniversário! Faço hoje 10 anos de existência, a mais pura e linda existência.


Sim ,amigos, a quem me teve, fui um protetor fiel das “intempéries” da vida, não raro a flama do calor nas jornadas frias, por vezes o único a não perecer. As grandes estrelas são assim, fazem o seu papel sem precisarem de nome ( tá certo, GAP?).


Ai, mas o tempo... Ele castiga. São 10 anos – algo em torno de uns 1000 anos na idade dos casacos – que me castigaram. Já não sou mais o mesmo. Ok, estou tentando enrolar e puxar (meu) saco, então vou direto ao assunto: É meu ultimo dia de vida. Portanto, deixo aqui meu adeus a todos que gostam e prezam por minha arte, por mim. Casacos não possuem sentimentos, não é? Talvez... Julgue como quiser, apenas não esqueça quem eu fui. Um roxo a mais na paisagem de uma vida “multicolor”. Eu e você não somos tão distantes assim, a minha vida se foi e a sua também irá um dia. Deixo aqui a minha lembrança para que você nunca se esqueça de viver, sejam quais forem as circunstâncias.


A propósito: Casacos não possuem epitáfios.


Texto de :F.


(Primário/2)

No começo havia o nada... - Serial "curtinhas"


- Mas pode escrever qualquer coisa?


Texto de: B.


(Primário)



©  2014-2016 AssessoriaLV - https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/