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Pequena fantasia de Zoé, o trainee de mergulhador

Posted on July 22, 2016 at 9:25 PM Comments comments (0)

O escafandro não apertava o tanto que aparentava. Arraigado, o ar era aos poucos difundido. Respirar? Respiro sem a dádiva do conforto – a pele irá se enrugar de novo, alguns anos de vida esquecidos abaixo do mar. Não que eu esteja reclamando da profissão, possuo extremo apreço pelo que faço (embaraço o desnecessário, perdão), mas vejo com maus olhos as intenções dos que me ordenam. Nenhuma melodia é capaz de curar os que alentam sem pulmão; os que pulsam sem coração; os pobres; os miseráveis; os infames da própria lábia, enganados por si a acreditar em uma desverdade qualquer. Guerra é paz. Paz é guerra? Provavelmente. Frescurices à parte (codinome nostalgia), deu-se assim a minha história:


Zoé: Chegou mais um cargueiro! Três horas e meia.

Sávio: Desembarquem a carga imediatamente, quero todos a postos para receber as peças. Angar 1 receberá nossa mercadoria.

Zoé: Talvez hoje seja meu dia de folga., quem sabe?

Sávio: Talvez.


Não foi. Você poderia perguntar quais peças valem um resgate. Pouco importa. Eu dependia de erros alheios, e eles frequentemente aconteciam – uma frequência maior do que o normal, desleixo ensaiado pela preguiça e bucolismo presentes. Enfim, aprontaram as minhas vestes. Não eram tão feias quanto diziam. Puseram-me ao mar, equipado, porém, despido. Afundei daquela vez como se fosse a última; busquei aquela carga como se fosse a única; e cada metro meu num passo tímido, segui. Mas nunca chegava. A aproximação era permanente, algo semelhante a:


Z: Cem metros da Carga.

S: Ok.

Z: Dez metros da carga.

S: OK.

Z: Um metro da carga.

S:Quase lá!


Engano maior. Segui assim num almost there infinito. Dez centímetros, um centímetro; dez milímetros, um milímetro... como o fôlego permanecia, e aquele escafandro torturava cada vez mais a mente com uma falha iminente, cabia apenas seguir enquanto houvesse um seguir. As escalas diminuíam, o sofrimento não. O dia cortejou a noite, deu-lhe o mar para que pudesse ver seu reflexo do céu. Gostaria de vê-lo novamente. Bobagem. Repito o impulso à frente, um talvez sprint de consagração. O fundo não era tão fundo como falavam aos bastidores, era mais! Momentos finais:


S: Tudo certo ai?

Z: Quase lá.

S: Tem certeza?

Z: Sim.

S: Responda, tem certeza? Precisamos dessa carga!

Z: Já respondi que sim!

Z: Sávio?

Z: Alguém?


A ambição embebedou meu sangue, já podia tirar aquele escafandro sem sofrer. Sozinho como nunca antes, acompanhado com o de sempre. O real não era tão irreal quanto diziam. Sim, estou perto. Basta um pouco mais...talvez agora? Não consigo distinguir as distâncias além, como também é impossível voltar sem ajuda. Dever-se-ia prestar pela prudência do siga em frente? Não sei. Minutos, horas, dias e anos de agonia. Quanto já passou? Largar de mão agora seria uma estupidez gigantesca, esse esforço todo para nada? Penso em desistir. Não posso. Já não importava o meu trainee de mergulhador, aquele momento transcendia meu viver. A existência paira sob a eternidade enquanto houver a tal peça para que eu possa alcançar.


Texto de: F.

Contos fantásticos da Marcela do almoxarifado

Posted on April 22, 2016 at 12:55 PM Comments comments (0)

Iniciou dizendo: Então chegamos ao fim de mais uma jornada. Nós, os exploradores da memória e do perdido, senão os mais esquecidos (leia-se ingênuos), sofremos com a fúria inabalável do remorso. Já diria Róbson: A superstição é o fruto da desobediência civil; deveríamos estar prontos para obedecer aos comandos que viessem. Tudo funciona como um grande Leviatã, disposto por uma cabeça central (a do chefe Róbson, é claro) que comanda outras tantas. Contudo, se por acaso do destino,talvez um dia fosse exigido o guardar do impossível, o que há de convir? Tornar o impossível uma realidade, ora pois!

 

Nesse pique passamos o dia, extasiados pela ideologia do “juntos conseguiremos”, até o momento em que fui buscar os arquivos da fila 27J, caixote 7. Entro numa sala média, por milênios esquecida, com os documentos de arquivamento “27” (eles tratavam do que mesmo, afinal?). Havia apenas um caixote na sala, o que me soava estranho diante de tamanha falta de espaço no resto do almoxarifado – parece que o chefinho está precisando melhorar sua cabeça pensante. Pois bem, disponho-me a levar a única caixa existente para fora da sala, talvez seja alguma pegadinha. Pegadinhas não são comuns em nosso setor, os preceitos da empresa exigem a total doutrinação ao bem comum dos arquivadores – e pegadinhas não são vistas positivamente nesse contexto. E lá havia outra opção? Talvez tenham mudado de ideia. Saio da salinha para ver o resultado: Todos sumiram.

 

Nossa, que engraçado, serei bonificada por toda essa vergonha alheia? Agora já podem aparecer...Mas ninguém dá o ar da graça, devem estar buscando algum bolo ou algo do tipo. Passam-se vinte, trinta, quarenta minutos. Não há mais como esperar, vou atrás de respostas para essa brincadeira de mal gosto (e bota mal gosto nisso). Visito os cantinhos da Darlene, do Ademilson, do Róbson, ninguém presente. Bem, resta a rua. Restava a rua. Eu simplesmente não acreditava no que meus olhos viam: não havia uma alma penada para contar a história! O deserto da rua era tão extasiante quanto a mais bela paisagem, um momento impossível de ser guardado na fúria; no medo; no prazer; na surpresa; na alma. Alma, é o que distingue a nós dos outros. Uma pessoa, ainda que tivesse todas as suas partes repostas por autônomos, seria a mesma por possuir a mesma alma. Espírito de viver. A única motivação que possuo para seguir em frente é acreditar que posso reencontrar os outros, a minha família, os ingênuos e os demasiadamente espertos demais para a existência comum. Todos de volta, pois, como já diriam os tios Peixeiro e Baquetão, todo signo é ideológico. Minhas palavras são invalidas se não puderem ser ouvidas no viver de outrem. Meu viver não existe se não por ouvido pelo palavreado do que fiz. Meu ouvir não existe se não vivido nas palavras.

 

Alguma pista? Devo procurar imediatamente. Espera, a caixa! Como não pensei nisso antes? Retiro da caixa um bilhete, era um sinal. Os dizeres “é como arquivar o próprio ser” atrapalhavam mais do que ajudavam, mas já serviam para um começo. Arquivar o próprio ser... Uma selfie, talvez? Utilizo o celular e – voilà- consigo outra pista: A foto que surgiu, de fundo verde fosco, exprime uma águia – bem parruda, igual às de cinema- atacando a jugular de uma cobra. Brutal. Esperava a minha imagem, todavia a aparição de uma nova pista já reiterava a minha vontade de vencer, o medo já havia sido esquecido em um passado distante. Era chegado o momento, eu sentia isso: O que há de significar essa imagem? A águia, símbolo da liberdade, a cobra (símbolo do que mesmo?), o fundo verde esperançoso. A solução lógica era “Devo acabar com a cobra, liberdade já! “, e não existia nada que impedisse minha vontade. Queria sair dali. A única opção era desfazer-me das amarras instauradas pelo Leviatã empresarial, buscar os novos caminhos, vencer os novos desafios. A única saída desse mundo vazio de pessoas era, enfim, voltar a enxergar olhos, notar o que já não era notado, buscar guardar aquilo que há de real importância. A existência deve ser constatada, os olhos devem ser vistos, louvados sejam os sentimentos puros daqueles livres por natureza.

 

- E foi por isso que você pediu demissão, Marcela?

- Sim, foi por isso.

- Mas o que tem haver tudo o que você falou?

- Era uma metáfora de minha vida, da vontade que tenho de viver fora de doutrinações robsonianas novamente.

- Entendi...

 

A verdade é que eu não tinha entendido nada. A Marcela não estava muito bem ultimamente. Espero que sua nova carreira na fotografia possa fazê-la mais feliz, por fim. Bem, agora que você já sabe o porquê de ela ter saído, melhor eu voltar a trabalhar: Róbson quer todos os relatórios novos arquivados até o final do dia. Ele foi premiado no ultimo “Seminário Internacional do Almoxarifado Empresarial”, e vai nos retribuir com uma grande honra: Teremos uma plaquinha de funcionário do mês a partir dos próximos dias. Tanto esforço tem que ser reconhecido alguma hora, não acha? Agora já para o trabalho!

 

Texto de: F.

Receita de saudade

Posted on April 22, 2016 at 12:55 PM Comments comments (0)

O principal ingrediente de que você precisará é amor, o causador do bem e do mal, em presença ou ausência. Além disso, o componente quase principal, dependendo da pessoa que cozinha: tempo psicológico ou cronológico, fica a seu critério, que será base do recheio da saudade. Uma boa dose de ansiedade e carência emocional para fazer o confeito. Para enfeitar o resultado final com requinte, você pode usar músicas depressivas, dê preferência às que façam alusão ao objeto inspirador do cumprimento dessa conatividade, e lenços molhados de secreção nasal. Deixe aquecer pelo travesseiro e colchas, e molhar pelas lágrimas por horas e está servido. Posição fetal para saborear o melhor do bolo.

 

Texto de: B.